Colaboração no mundo dos negócios

Este artigo foi publicado originalmente na edição n.8 da Revista Espírito Livre, lançada em Novembro de 2009. Sempre que posso recomendo a leitura da revista, que é gratuita e de ótima qualidade! Veja neste link todas as edições e tenha uma boa leitura. Segue o meu artigo.

A cada dia, mais empresas começam a enxergar o software livre como uma opção viável e estratégica para seus negócios, gerando independência de fornecedores e economia. No modelo proprietário, existe a figura do fornecedor, que dá suporte a problemas e consultoria, figura esta que normalmente não existe no modelo livre. Algumas vezes, existem empresas especializadas em prestar serviços a determinados softwares livres, mas, o que acontece na maioria dos casos, é que a comunidade é seu principal mantenedor, tornando necessária a interação da empresa usuária com ela.

Esta interação pode ser feita de várias formas, cabendo à empresa decidir como a fará, mas elas podem ser enquadradas em alguma destas três categorias:

  1. ter contato direto com a comunidade;
  2. terceirizar este contato;
  3. se tornar parte da comunidade;

Contato direto com a comunidade

Normalmente feito por empresas de maior porte, é quando ela decide que irá interagir diretamente com os desenvolvedores do software. Na prática, isto normalmente significa que um grupo de pessoas da área de TI desempenhará funções de:

  1. Reporte de problemas (bugs);
  2. Pedidos de novas funcionalidades;
  3. Repasse de dúvidas para a comunidade;

O problema deste tipo de interação é que é bastante passiva e não trás garantias de que a resposta será adequada ao nível de severidade que um possível problema possa ter. Ele é parecido com o modelo proprietário, onde estas mesmas interações são com a fornecedora do software, mas, neste caso, não existe contrato para poder cobrar judicialmente uma resposta adequada.

Esta forma de interação normalmente é o mais comum de ser visualizado por quem está começando com software livre (e que acaba gerando a famosa pergunta “quem dá suporte?”). Apesar disso, o risco é menor quando a empresa usuária já é experiente neste assunto e sabe lidar melhor com a comunidade.

No entanto, este tipo de interação pode ser interessante para casos menos críticos, como pequenos aplicativos livres. Como isto não irá interromper nenhum serviço crítico, o seu uso torna-se seguro, mesmo contando apenas com o suporte informal.

Mas não é interessante que a empresa apenas “sugue” o trabalho desenvolvido colaborativamente. Elas normalmente dão um retorno para o projeto, como doações ou publicidade. Neste último caso, o próprio fato de uma empresa com nome de peso estar utilizando um software livre, já o torna mais conhecido, trazendo para a sua comunidade mais pessoas interessadas em contribuir.

Para softwares maiores, também podem ser feitos patrocínios ou organização de eventos. Um exemplo de empresa que faz bastante isto é o SERPRO. Este órgão é um dos maiores usuários da linguagem Python e sempre que possível patrocina os eventos da comunidade no Brasil. Ele é, inclusive, um dos grandes responsáveis pela popularização da linguagem no nosso país.

Nos casos onde são necessários desenvolvimentos, como correção de bugs e implementação de novas funcionalidades, empresas usuárias às vezes fazem pagamentos diretos para um desenvolvedor ativo do software fazer o trabalho necessário. Esta solução se aproxima com o que viremos a seguir.

Terceirizando o contato

Uma empresa também pode escolher por não ter nenhum contato direto com a comunidade e contratar empresas que farão este trabalho. A contratada fica responsável por solucionar os problemas nos softwares livres, como se eles fossem propriedade dela. Assim, se esta não responder às demandas de forma conveniente, a usuária estará resguardada judicialmente por um contrato.

Isto é bastante parecido com o modelo proprietário, com a diferença fundamental que a usuária poderá fazer o mesmo tipo de contrato com outra consultoria. Como o software livre não tem donos, a partir do momento que a contratada não honra o contrato, ele poderá ser rescindido e ser refeito com outra. Isto também é o mais simples de ser implementado por empresas de menor porte e pelas que estão iniciando a adoção.

Um exemplo muito bom de empresa que faz isto de uma maneira muito inteligente é a Caixa. A empresa abre licitações para contratação de consultorias em software livre, contendo exigências de que a empresa contratada tenha um número mínimo de membros ativos na comunidade. Isto, ao mesmo tempo que garante uma qualidade de serviço melhor, pois a consultoria terá pessoas qualificadas para o trabalho, contribui para que o software se fortaleça, remunerando os membros ativos e incentivando a entrada de novos.

Tornando-se parte da comunidade

Existem também algumas empresas que, de certa forma, se tornam parte da comunidade. Elas, ao invés de terem um papel passivo, tiram total proveito da liberdade do software se tornando membros ativos da comunidade, desempenhando funções de:

  1. Desenvolver novas funcionalidades;
  2. Corrigir bugs;
  3. Sanear dúvidas de outras pessoas;
  4. Gerar documentação;

Obviamente, para se fazer isso, é necessário que pessoas da empresa tenham um conhecimento mais profundo do software (especialmente nos dois primeiros casos) e que ela tenha mais experiência com o modelo colaborativos e de como lidar com a comunidade. Mas este tipo de interação se torna mais fácil quando a empresa fez algum trabalho interno que possa ser liberado para o público externo. Ela o disponibiliza para que todos possam se beneficiar dele.

Quem utiliza bastante este modelo é o Banco do Brasil. Ele faz contribuições para os softwares que usa, como o desenvolvimento de melhorias no Wine, traduções do Freemind e código e documentação do BrOffice.org. Estes trabalhos foram feitos para o atendimento de demandas internas e que, posteriormente, foram disponibilizados. Neste caso, ambas as partes ganham: todos os usuários, que contarão com um software melhor, e a própria empresa, que não precisará manter os códigos desenvolvidos por conta própria.

Além disso, algumas empresas enxergam esta forma de trabalho como algo essencial para usos em atividades críticas. Nestes casos, elas preferem absorver um conhecimento mais profundo do software para que, na ocorrência de problemas que possam comprometer a empresa de maneira mais severa, ela mesma seja capaz de resolvê-los, dando prioridade máxima a eles e sem depender da disponibilidade de empresas externas.

Concluindo

Ao utilizar software livre, será praticamente inevitável que uma empresa tenha algum tipo de interação com a sua comunidade. Mas isto, ao contrário do que muitas delas acostumadas com o modelo proprietário possa pensar, não é ruim. Isto gera uma movimentação em volta do software que trará mais garantias de sua continuidade, incentiva que mais empresas deem suporte a ele (aumentando a concorrência), melhora sua própria imagem perante o público e fica cada vez mais independente de empresas externas.

Mas deve ficar claro que não existe uma forma de interação melhor que a outra e, da mesma forma, uma forma não impossibilita outra (as empresas citadas nos exemplos interagem por diversas maneiras). Como tudo no software livre, isto que é uma questão de escolha – a empresa usuária tem o poder de escolher de qual a melhor forma para ela.

Olhando para o mercado, o que podemos ver é que a maioria das empresas têm uma atitude mais passiva. Como o software livre ainda está começando na maioria delas, estas formas de interação se tornam mais interessantes por serem mais parecidas com as do modelo proprietário do qual já estão acostumadas. Algumas têm uma atitude mais ativa, mas por terem alguns funcionários próprios que participam de projetos livres e acabam trazendo isso para seus trabalhos. De uma forma ou de outra, o importante é incentivar que as comunidades cresçam e que os softwares se fortaleçam para que o investimento feito não tenha sido em vão.

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